domingo, 24 de novembro de 2013

PORQUE DEIXEI A ARQUITETURA

No artigo a seguir,  que foi publicado originalmente na Medium como "What Starbucks Gets that Architects Don't", Christine Outram, lamenta que os arquitetos de hoje simplesmente não dão ouvidos às necessidades reais das pessoas.
Caros arquitetos,
Vocês estão desatualizados. Sei disso porque já fui uma de vocês. Mas agora mudei. Evolui porque apesar do amor que vocês sentem por uma bela curva e suas experimentações com formas, vocês não entendem as pessoas.
Vou me corrigir. Vocês não escutam as pessoas.
Em termos legais, um arquiteto é aquele profissional da construção que tudo vê, tudo sabe. Vocês são os responsáveis por tudo que acontece de errado em um edifício, mas e se alguém simplesmente odiar os espaços que você projetou? Se alguém se sentir desconfortável, ou com frio, ou com medo? Bom, quanto a isso não existe nenhuma ação judicial.
Costumava pensar que era impossível para vocês responder à um público do mesmo modo que fazem as startups. Essas startups podem construir um produto, lançá-lo na internet e ajustá-lo com base no feedback que recebem. É um processo interativo. Arquitetura, pensava, era muito permanente para isso. Tinha muita coisa em jogo, apenas uma chance de se fazer corretamente, muitas variáveis e todo aquele blá blá blá.
Mas a verdade é que muitos de vocês nem tentam. Se baseam nas regras de ouro e livros consagrados, mas vocês raramente fazem pesquisas etnográficas aprofundadas. Podem sentar no terreno durante uma hora e observar as pessoas "utilizarem o espaço" mas vocês levantam e vão lá falar com elas? Descobrem suas motivações? Suas tentativas realmente incorporam as vontades dessas pessoas no processo de projeto?
O mundo está mudando. Vocês têm todas essas ferramentas em suas mãos. Novas ferramentas que não vejo sendo usadas e muitas técnicas antigas nas quais vocês poderiam melhorar bastante.
Essa ideia fez sentido pra mim quando li um artigo recente sobre os projetos das lojas Starbucks. Vocês podem odiar o Starbucks. Podem acreditar que eles são uma entidade comercial sem alma, sem nenhum mérito arquitetônico, mas sabem em que eles são bons? São bons em responder às necessidades das pessoas e seus desejos.
Do artigo:
Starbucks entrevistou centenas de consumidores de café, buscando saber o que eles queriam encontrar em uma cafeteria. O consenso da maioria esmagadora na verdade não tinha nada a ver com o café, os consumidores procuravam o que seria um lugar de descanso, um lugar de pertencimento.
Meus caros arquitetos. É por isso que a Starbucks possui mesas redondas em seus estabelecimentos. Elas foram pensadas "em um esforço de proteger a auto-estima de seus consumidores solitários". Não eram mesas redondas porque o arquiteto pensou que ficaram mais agradáveis assim, não eram redondas porque eram mais baratas, mas eram redondas porque, assim como conclui o artigo, "não existem lugares vazios em mesas redondas".
Starbucks
Starbucks entrevistou centenas de consumidores antes de determinar que mesas redondas seriam a melhor solução paras as pessoas. Cortesia de Medium.com
As mesas redondas no Starbucks foram o resultado de se perguntar como queremos que as pessoas se sintam antes de considerar o que queremos que elas façam.
A forma segue o sentimento.
Agora, eu não estou dizendo que todos os arquitetos são ignorantes neste sentido. Arquitetos residenciais muitas vezes têm sucesso quando se trata de construir espaços habitáveis. E aí tem Gehl Architects. Eles são famosos e respeitados por suas técnicas etnográficas - embora hoje em dia eles pareçam mais focados em master plans e renovações urbanas, e não acho que realmente façam arquitetura. Ou fazem? E mesmo assim, eu teria que assumir que esses arquitetos empregam métodos antigos de observação com exemplos limitados de escalas.
Aparentemente, vocês não abraçaram as oportunidades que a internet tem nos oferecido. Oportunidades como: pesquisa de um grande número de pessoas que usam ferramentas online ou simulação da probabilidade de um espaço comercial realmente ter tráfego de pedestres. Ninguém quer uma série de lojas vazias. Acaba tornando-se um bairro triste. Vocês poderiam utilizar e desenvolver ferramentas que auxiliem a entender se isso vai acontecer. Mas vocês não o fazem.
O mesmo acontece para o resto da profissão. Vamos combinar que a maioria dos edifícios comerciais, hospitais e delegacias de polícia estão abaixo do esperado de um edifício público. E mesmo quando são agradáveis ​​aos olhos, isso não significa que eles foram construídos para atender as necessidades humanas: se não acredita em mim, leia este artigo do New York Times sobre os edifícios de Santiago Calatrava.
Não é de se espantar que a arquitetura se transformou em uma vocação de nicho. Não se relaciona mais com as pessoas.
O problema é que arquitetos parecem seguir as últimas tendências descoladas da linguagem formal. Proponho um desafio: folheiem alguma revista de arquitetura hoje. Encontram alguma pessoa nas fotografias? Imaginei que não. Com certeza encontrarão muitas imagens que idolatram ângulos obtusos ou o encontro de dois materiais.
Posso estar errada. Talvez a profissão tenha crescido e amadurecido enquanto eu não estava olhando e começou a direcionar um olhar mais centrado nas pessoas que vão habitar seus edifícios. Mas o que realmente me deixa perplexa é que a maioria de vocês nunca realizam avaliações pós-ocupação! (Essa eu não consigo superar).
Então se eu estiver errada, me prove. Até que seja provado o contrário, permaneço desapontada.
Você é um estudante ou profissional formado em arquitetura que quer ajudar a entender se arquitetos realmente escutam as pessoas e quais ferramentas e técnicas utilizam para fazer isso? Responda à essa pesquisa. 
Christine Outram é uma estrategista de cidades inteligentes centrada nas pessoas, amante da música, e arquiteta responsável pelo projeto da Copenhagen Wheel. Começou sua carreira praticando arquitetura e desenho urbano na Austrália. Desde que mudou para os EUA, é pesquisadora membro do laboratório MIT’s SENSEable City Lab, fundou o grupo de reflexão City Innovation Group, e atualmente é coordenadora-chefe, ou Senior Inventionist' da Deutsch LA.
Cita:Outram, Christine . "Porque deixei a arquitetura" [Why I Left the Architecture Profession] 23 Nov 2013.ArchDaily. (Pedrotti, Gabriel Trans.) Accessed 24 Nov 2013. <http://www.archdaily.com.br/br/01-154559/porque-deixei-a-arquitetura>

PREMIAÇÃO IAB

Prezados colegas,

O IAB-BA está retomando, após 11 anos de interrupção, sua premiação de arquitetura e urbanismo. 

São seis categorias com inscrição aberta para trabalhos realizados entre 2003 e 2012 no Estado da Bahia e/ou por arquitetos e urbanistas residentes no Estado da Bahia: 

1) Arquitetura de Edificações;
2) Arquitetura de Interiores e Design;
3) Urbanismo e Paisagismo;
4) Restauração e Requalificação do Patrimônio Edificado;
5) Projeto Salvador;
6) Publicações.

A categoria "Projeto Salvador" está aberta também à participação de estudantes e premiará projetos, executados ou não, que proponham soluções criativas, corajosas e exequíveis para problemas urbanos de Salvador ou que apresentem propostas que qualifiquem significativamente áreas e espaços urbanos degradados de nossa capital. Inscrevam seus trabalhos!

Além das seis categorias citadas, será concedido o Prêmio "Arquiteto Diógenes Rebouças" a um profissional que, pela sua atuação em projetos, construções, gestão pública e/ou formação profissional, tenha contribuído significativamente para o desenvolvimento da arquitetura e do urbanismo na Bahia.

As comissões julgadoras de cada categoria serão formadas por três profissionais de reconhecida capacidade, sendo um baiano e dois "forasteiros", com exceção da categoria "Projeto Salvador", cuja comissão julgadora será formada por três arquitetos locais: um representando o IAB-BA, um representando a Prefeitura Municipal de Salvador e um representando o Governo do Estado da Bahia. Dentre os nomes já confirmados para compor a Comissão Julgadora, estão Carlos Eduardo Comas (RS), Flávio Carsalade (MG), Heliodório Sampaio (BA), Jô Vasconcelos (MG), Luiz Amorim (PE), Neilton Dorea (BA), Sônia Marques (PE/PB) e Tania Scofield (BA). 

O Regulamento da Premiação e a ficha de inscrição estão disponíveis para consulta e download no site do IAB-BA: www.iab-ba.org.br 

Solicito a colaboração de todos divulgando a premiação junto a arquitetos e urbanistas e a estudantes de arquitetura e urbanismo.

Atenciosamente,

Nivaldo Vieira de Andrade Junior
Presidente do IAB-BA

terça-feira, 24 de setembro de 2013

CAU faz vistoria de acessibilidade no HGE


Para lembrar o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, comemorado no dia 21 de setembro, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia – CAU/BA, fez, na sexta-feira (20), uma vistoria de acessibilidade no Hospital Geral do Estado (HGE). A ação que tem como objetivo verificar as condições de empreendimentos de utilização pública, o acesso e as respectivas dependências e mobiliários, pretende alertar os gestores sobre as situações que, adaptadas, possam dar condições de alcance, segurança e autonomia para pessoas com deficiências ou com mobilidade reduzida.
A vistoria foi feita durante toda a manhã da sexta-feira, verificando desde o entorno do hospital, começando pelo ponto de ônibus da Avenida Vasco da Gama, vias de acesso e estacionamento, à parte interna da instituição. A equipe responsável pela vistoria, vai encaminhar relatório para a direção do HGE e para a Secretaria Estadual de Saúde, apontando as irregularidades observadas e recomendando as devidas adequações conforme a Legislação vigente.
Segundo dados do IBGE, a Bahia possui 1,2 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência e na Capital, a estimativa é de que 450 mil pessoas, quase 17% da população, possuem algum tipo de deficiência. O Hospital Geral do Estado foi escolhido pelo Conselho de Arquitetura para a primeira vistoria por ser um local de movimento intenso, onde a Acessibilidade se torna imprescindível. A emergência do HGE é de alta complexidade, com atendimento para toda a Região Metropolitana de Salvador e interior do Estado, chegando a receber, em média, 300 pacientes por dia.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

CAU BA PROMOVE ENCONTRO EM BARREIRAS



O Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia – CAU/BA, está promovendo encontros em várias cidades do interior do Estado. Barreiras será o próximo município a receber a equipe do CAU que já passou por Feira de Santana, Porto Seguro, Teixeira de Freitas e Ilhéus, somente este ano. O encontro tem formato de oficina e tem como meta promover a valorização profissional, destacando o “Empreendedorismo” como tema principal. Em Barreiras o evento acontece no dia 03 de outubro, das 08:30 às 17:30hs, no auditório do SEBRAE localizado na Avenida Benedito Silveira, 132.
Não é por acaso que o tema “Empreendedorismo” foi escolhido pelo Conselho. Segundo resultado do censo dos Arquitetos e Urbanistas do Brasil, divulgado recentemente, na Bahia, dos 2.582 profissionais que participaram da pesquisa, apenas 503 arquitetos e urbanistas trabalham como pessoa jurídica. Além disso, o CAU/BA deve lançar nos próximos meses o programa “Arquiteto Empreendedor”, como mais uma ferramenta da valorização profissional.
A programação segue a mesma linha para todas as cidades do interior e da capital do Estado, começando com a palestra “O Arquiteto Empreendedor – aspectos contábeis e legais”. Em seguida os profissionais podem esclarecer dúvidas com a explanação do CAU sobre o Exercício Profissional e o que muda para os arquitetos e a sociedade com a criação do Conselho específico para a categoria.
Outra palestra que fará parte da programação das Oficinas nas cidades do interior da Bahia com maior representação profissional e na capital do Estado, será sobre a “Natureza Jurídica do CAU”. Durante o evento o CAU esclarecerá dúvidas dos profissionais sobre as ferramentas e funcionalidades do SICCAU – Sistema de Informação e Comunicação do CAU.
Na condição de agente fomentador da valorização profissional, além das oficinas de interiorização, o CAU/BA, está implementando, igualmente, ações de sensibilização e de articulação com diversos órgãos públicos visando firmar compromisso de Cooperação Técnica com os municípios. Na oportunidade, os profissionais que participarem do evento, assim como a imprensa e autoridades, vão receber material de divulgação do resultado do Censo, o primeiro realizado no Brasil para identificar a realidade dos profissionais de arquitetura e urbanismo no país.

Conforme dados do censo, no Nordeste são 10.162 profissionais de arquitetura e urbanismo. Na Bahia participaram da pesquisa 2.582, sendo que a maioria está na capital do Estado. Na região de Barreiras são, aproximadamente, 100 arquitetos atuando no mercado.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

COMO TRANSFORMAR NOSSAS CIDADES E COMUNIDADES EM LUGARES MELHORES PARA SE VIVER

O recente livro “Hot to Design our World for Happiness”, editado por Jay Walljasper e uma equipe e OntheCommons, nos mostra algumas dicas de como transformar nossas cidades e comunidades em lugares melhores para se viver. A seguir uma lista com alguns conselhos (básicos, e mesmo assim nem sempre compridos) publicados no livro mencionado.

1.  Acabar com o mito de que todos os problemas têm soluções individuais, isoladas ou privatizadas.
2.  Observar como muitos dos prazeres da vida existem fora do mercado: pescar, conversar, escutar música, jogar futebol, desfrutar a natureza, e outros.
3.  Dedicar tempo para desfrutar o que sua esquina oferece (como o educador Paulo Freire disse “Somos mais que nossos horários de trabalho”).
4.  Passar bons momentos. A melhor razão para fazer grandes lugares é a alegria que ele proporcionará a todos.
5.  Oferecer um sorriso ou cumprimentar as pessoas. A comunidade começa com as conexões, inclusive as breves e espontâneas.
6.  Andar a pé, de bicicleta ou de transporte público sempre que possível. É bom para o meio ambiente e para si mesmo. Não se faz muito amigos no volante do seu carro.
7.  Tratar os espaços comuns como se fosse sua responsabilidade (que na verdade, são). Recolha o lixo. Mantenha os olhos abertos. Ponha ordem nas coisas. Relate os problemas ou tente consertar as coisas por si mesmo. Inicie as melhoras.
8.  Fazer algo. Uma festa de bairro. Um coral comunitário, um clube de slowfood, jogos de pôquer nas sextas à noite, ou qualquer outra desculpa para socializar.
9.  Sair de casa e passar algum tempo na varanda, no jardim, na rua ou em qualquer outro lugar que faça sua vida mais fluida.
10.  Criar ou desenhar uma “praça dos vizinhos”, já que as pessoas gostam de reunir-se nos jardins, nas áreas de recreação ou mesmo em um terreno baldio onde se faça um centro comunitário, um café, ou mesmo em uma esquina.
11.  Criar bancos, fontes, praças, parques, caminhos, bicicletários, parques infantis e outros equipamentos comuns.
12.  Tomar os assuntos nas próprias mãos e agir.
13.  Criar um inventário dos bens comuns locais e compartilhar os resultados, como informação e base para demanda de melhorias.
14.  Organizar seus vizinhos para prevenir a delinquência e lutar contra o medo da violência, que às vezes tem efeitos piores que a violência em si.
15.  Lembrar as pessoas de que as ruas são de todos, não só dos automóveis. Dirigir com cuidado e promover melhorias que lembrem os motoristas de que eles não são os reis das ruas.
16.  Comprar em estabelecimentos locais e independentes sempre que possível
17.  Criar um sistema de compartilhamento de ferramentas e utilidades.
18.  Negociar suas habilidades em troca das habilidades das outras pessoas.
19.  Criar campanhas sobre os bens públicos, transportes, escolas e bibliotecas, parques, serviços sociais, polícia e proteção contra incêndios, programas culturais, etc.
20.  Escrever cartas públicas acerca da importância dos bens comuns da comunidade, publicadas nas páginas online locais, programas de rádio e compartilhadas entre conhecidos.
21.  Aprender do mundo todo. O que Copenhague nos ensina sobre as bicicletas? A Índia sobre o bem estar? A África sobre a solidariedade nas comunidades? Os povos indígenas sobre o compartilhamento da terra? Quais ideias podem ser pegas de bairros e povoados próximos?
22.  Converter-se em um jardineiro de guerrilha, cultivando flores e hortaliças em terrenos abandonados.
23.  Organizas um jardim comunitário e mercado agrícola local.
24.  Contribuir para fortalecer matas, bosques ou outros ecossistemas locais.
25.  Formar um grupo de estudo para explorar ideias de como melhorar sua comunidade.
26.  Pensar em si mesmo como um patriota local e compartilhar seu entusiasmo.
Tem outras ideias? Compartilhe-as nos comentários!


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

ENSAIO SOBRE A CRIAÇÃO

Pergunta: O que é que faz de alguém capaz da arquitetura?
Quais são os requisitos? O que há que exercitar? O que há que saber? O que há que conhecer? O que há que estudar?
Finalmente, nada faz de alguém capaz da arquitetura.
Primeiro exemplo: alguém pode conhecer muitas obras, haver percorrido muitos lugares, ser perito na história da arquitetura, contudo, isso não o faz capaz da arquitetura.
Segundo exemplo: alguém poder haver estudado e investigado muitas obras e temas, haver feito mestrados, doutorados, pós-doutorados, etc., e ainda assim, isso não o faz capaz da arquitetura.
Terceiro exemplo: alguém pode ter um extenso e profundo conhecimento de outras disciplinas, pode ser um erudito, saber muito de tudo, ser um indagador da condição humana, porém isso tampouco o faz capaz da arquitetura.
Quarto e último exemplo: alguém pode haver exercitado a profissão e o desenho diariamente durante dezenas de anos, pode haver-se imposto uma rotina quase monástica da prática e produção, e inclusive pode haver construído muitos edifícios em distintos lugares, e também isso não o faz capaz da arquitetura.
Por quê?
Há algo que explica então que alguém seja capaz da arquitetura? Que qualidade essencial para o arquiteto –e para todo verdadeiro criador– é essa?
Essa qualidade é a sensibilidade.
O arquiteto é um ente sensível. E o é em duplo sentido. O arquiteto é sensível tanto à circunstância, aquilo que o rodeia, quanto à sua própria condição humana, aquilo que é.
Isso merece algumas palavras mais. A circunstância existe apesar do homem: já está aí, e é indiferente a ele. Porém o homem, maldito pela razão, a crê sua em posse, como algo alheio a ele. Não está aberto a receber a razão como dispositivo através do qual se cria outra circunstância: um óculos cujas lentes são prejuízos, transparente como aqueles, pouco perceptíveis. O arquiteto é aquele capaz de declarar os próprios prejuízos e criar a circunstância possível através deles. O arquiteto, sensível a si mesmo, parte de sua própria condição em direção à circunstância. Sabe da impossibilidade do sentido contrário. Concebe-a como algo interior, que lhe pertence. Porém sua sensibilidade à circunstância de fato, que existe apesar dele e que lhe rodeia, sua vontade e fidelidade à ela, o faz concebê-la novamente como um véu-circunstância. O arquiteto, ente sensível, concebe o véu-circunstância que cobre, protege e enriquece a circunstância. E sua única circunstância será esse véu: o mais transparente, leve e delicado. O arquiteto é aquele capaz de criar os próprios óculos –e os tirar quando assim desejar–.
Porém então, como explica a sensibilidade o fato de que os grande criadores sejam homens?
Entramos num tema delicado. É preciso levá-lo com cuidado e tomá-lo sem hipocrisia.
A sensibilidade está diretamente envolvida com a capacidade de criação. A mulher é em e por si mesmo sensível: leva consigo, indissoluvelmente, a capacidade de criação. Não busca a criação, cria. A criação faz parte do seu ser. Assim como alguém que ama não pensa no amor, ama. Os que pensam e podem pensar no amor são aqueles que não amam, ou não amam naquele momento, já amaram.
O homem, por outro lado, é um cachorro louco dando voltas em busca da cauda da criação. Não possui essa capacidade, e a tem que buscar incessantemente, como se lhe faltasse algo que lhe deixa vazio, vácuo. Para a mulher, o monstro do Dr. Frankenstein é uma tentativa ridícula; para o homem, é o sentido da sua vida.
O que falta então à mulher para que seja capaz da arquitetura?
A força decidida, o punho fechado e determinado do homem. O desejo por criar. Um desejo sincero, porém cego. Uma luta sem esperança que só faz sentido em si mesma, através de cada batalha. A vida do homem é uma sucessão de batalhas inúteis contra a impossibilidade da criação de fato: a criação da mulher.
O que falta ao homem?
A sensibilidade intrínseca. O desinteresse e a gratuidade de e na criação. A criação suprarracional. A desnecessidade inata de meditar sobre ela.
Eis a diferença da criação do homem e da mulher: aquela vem à existência através da razão; esta, está além da razão.
Porém o arquiteto, o ser capaz da arquitetura, carrega consigo congenitamente ambas virtudes: a de criar suprarracionalmente e a de meditar pela criação.
O homem arquiteto nasce banhado de femininidade. Leva consigo parte de sua Eva.
A mulher arquiteta nasce com a mão forte do homem, não só sua costela.
E quando, como, onde, por quê, nascem sujeitos como esses?
Não sei, porém nascem.
Cita:Fracalossi, Igor. "Ensaio sobre a criação" [Ensayo sobre la creación / Igor Fracalossi] 05 Sep 2013.ArchDaily. (Fracalossi, Igor Trans.) Accessed 6 Set 2013. <http://www.archdaily.com.br/br/01-139294/ensaio-sobre-a-criacao>

terça-feira, 3 de setembro de 2013

RESERVA TÉCNICA

RESERVA TÉCNICA
Você, que não é arquiteto, conhece o significado da expressão “reserva técnica”? Eu nunca tinha ouvido, pelo menos com o sentido que o termo adquiriu entre essa categoria que aprendi a respeitar na casa de João Batista Villanova Artigas, um dos papas da profissão.
Corresponde a uma prática usual no feroz mercado da construção. O profissional indica determinado produto, insumo ou material e ganha uma, digamos, bonificação, do fabricante ou vendedor. Em português claro: recebe uma propina. Ou uma comissão, se quiserem, por ter indicado a marca A em vez da B. O dinheiro vai para a conta do escritório que projetou a obra ou para o bolso do arquiteto e não para seu cliente, que paga a conta, seja ele pessoa física, empresa privada, ou pior, o governo – isto é, nós todos.
A boa notícia é que entre oito e nove de agosto, em Brasília, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo – CAU – aprovou o Código de Ética e Disciplina de Arquitetura e Urbanismo. E condenou a reserva técnica à condição de infração.
Esse Código é o primeiro resultado efetivo do conselho criado em 2010 – antes, arquitetos e urbanistas gravitavam em torno da entidade que rege engenheiros e agrônomos, permitindo uma ação mais específica. Um dos primeiros filhotes do Conselho é o novo código de ética.
O Código parte do princípio de que que arquitetos e urbanistas prestam serviços de caráter intelectual de interesse público e social e como tal, devem priorizar o julgamento profissional erudito e imparcial, reconhecer e defender o conjunto do patrimônio ambiental e cultural e os direitos fundamentais da pessoa humana, entre outros compromissos. Em favor do interesse público, precisam buscar a boa qualidade das edificações e das cidades, que só existe quando se respeita o ordenamento territorial e a inserção harmoniosa no entorno e no ambiente. Afinal, casas e prédios não estão soltos no mundo.
A reserva técnica inscreve-se nos termos da regra 3.17: “O arquiteto e urbanista deve recusar-se a solicitar, aceitar ou receber quaisquer honorários, proventos, remunerações comissões, gratificações, vantagens, retribuições ou presentes de qualquer tipo, sob quaisquer pretextos, de fornecedores de insumo aos seus contratantes sejam constituídos por consultorias, produtos, mercadorias ou mão de obra.”
Tem muito mais, mas isso já seria muito. Num país onde médicos são premiados com viagens para congressos em verdadeiros paraísos, (com direito a acompanhante) desde que prescrevam determinados medicamentos e onde licitação pública virou infeliz sinônimo de acerto por baixo dos panos, é um grande avanço.
Não é uma revolução, mas nos ajuda a lembrar de Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá, que empenhou até seus bens pessoais para pagar os credores quando seu banco quebrou. No outro corner está Francisco Inácio de Carvalho, seu contemporâneo. Representante diplomático na Grã-Bretanha, o barão de Penedo vivia num palacete de três andares, perto do palácio de Buckhingham, o endereço mais caro de Londres, em cuja sala de jantar, capaz de receber comodamente 60 pessoas, dava altas festas. Tudo pago com a grana dos financistas britânicos. O barão de Penedo negociou sete dos 11 financiamentos ingleses feitos ao governo brasileiro e cobrava reserva técnica – só não usava o termo.
O JABÁ
Jornalistas também tem seus pecados. Teve época em que não pagávamos passagens aéreas. Mais recentemente, tínhamos descontos especiais na compra de carros zero. A troco de quê não perguntávamos.
FORA DO EIXO Se outras instituições fossem submetidas à lupa que hoje vasculha a ação do Fora do Eixo, melhor seria nosso país.

Paulo Markun